quinta-feira, 3 de março de 2011

A Noite e o Dia

Nos labirintos de concretos das grandes cidades normalmente o pôr do sol passa despercebido entre construções, luzes artificiais e poluição. Um espetáculo diário que torna-se invisível com a maioria de nós vivendo entrincheirados entre as quatro paredes de um escritório na luta insana para obter o vil metal, ou ainda quando estamos enfiados em shoppings , gastando futilmente só pra mostrar a todos o quanto somos dedicados e empenhados em obter o tal do vil metal... .

Vasculhando meus “favoritos” com o flickr de alguns fotógrafos, entre eles astrônomos amadores, encontrei esta belíssima foto, com uma imagem que me lembrou um dos momentos mais mágicos que já vivi nos meus 7 anos de surf! Numa fria tarde de inverno, atento às ondas, de repente me dei conta que o céu dividia-se entre o dia e a noite. Algumas vezes já tive a oportunidade de observar a abóbada celeste dividida em sua parte oriental já em noite, com as estrelas visíveis aninhadas em seu leito celeste, e a parte ocidental ainda iluminada com últimos raios de sol. Mas lembro especialmente deste gélido final de tarde em Matinhos, no inverno de 2004. Eu e meus brothers Luis, Tiago e Junior "Ju-Ju" Belz estávamos na água, aproveitando as ondinhas de um mar calmo e intensamente frio, típico de um fim de tarde de julho. Passava das 5 e o céu estava límpido, quando de repente começa o crepúsculo ao leste, em direção ao Atlântico. Quando me dei conta, a parte do céu sobre o mar já estava escura, noite feita, estrelas em seu palco brilhando na noite. Porém, em direção à Serra do Mar, o céu ainda estava razoavelmente claro, com os últimos raios de sol surgindo por trás das montanhas, esculpindo um cenário que começava em um tom de laranja e fluía em um belíssimo degradê até o lilás e depois o completo azul do dia até o extremo ocidental entre as montanhas da Serra do Mar. . Fiquei mudo, admirando cada nuance daquele espetáculo que fazia o céu luzir entre as estrelas em meio aos últimos raios de sol! Ainda dentro da água literalmente imerso no Universo, fiquei ali contemplando aquele belíssimo espetáculo até que a noite então assumisse definitivamente o comando do firmamento.

Naquela fria tarde de inverno eu sei que o Universo falou diretamente comigo, como em muitos outros momentos, como quando a minha pequena Mayra Kai com suas mãozinhas e olhinhos descobre o mundo, ou quando uma noite de verão é iluminada em flashs pela energia que passeia de nuvem em nuvem. Não há nenhuma escolha, nenhum, privilégio nisto. Isto tudo está a disposição de todos nós. Delicadamente Deus (ou o Universo, chame como quiser, é tudo a mesma coisa) nos coloca a par de todo o encanto e mistério da criação, seja no sorriso de uma criança, seja num cãozinho abanando alegremente seu rabo, no abraço de um amigo ou num desses espetáculos diários da natureza. Porém seguimos adiante, negligenciamos o cuidado e o carinho de Deus! Muitos de nós, num misto de ignorância e imprudência, vivem celebrando diariamente sua tola vaidade, desatentos a tudo o que realmente importa!

A todo momento rola um espetáculo criado pelo Universo, sejam momentos grandiosos e impactantes ou de sutil delicadeza. Tudo é oferecido pra que cada um de nós sinta dentro de si um tipo de importância especial em fazer parte deste mundo. Carl Seagan disse que a Terra é um palco muito pequeno, numa imensa arena cósmica. Sim, somos poeira, nosso lar é um grão perdido entre centenas de outras galáxias, milhares de outros mundos! E ainda assim o Universo reserva a cada um de nós momentos e emoções únicas! O Grande Dramaturgo compõem diariamente cenários magníficos, traça o roteiro das melhores histórias, para que cada momento de nossas vidas seja único e especial, para fazermos do magnífico papel de existir um espetáculo diário!

Meus dias são repletos destes momentos, estou sempre atento a cada nuance do único grande milagre que existe: Viver, fazer parte do Universo!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

LeRoy Grannis

LeRoy Grannis, nasceu em Hermosa Beach na Califórnia. Além de ter o Pacífico em seu quintal, desde pequeno ele foi incentivado pelo pai a manter um contato intimo com o mar. Das aulas de natação ao primeiro presente , uma Bellyboard (o precursor das Bodyboards), Grannis tinha no oceano o seu playground, cenário que emoldurou sua infância e determinou pra sempre seu vínculo com mar.

Na juventude, enfrentou a Grande Depressão fazendo bicos de carpinteiro e revendendo ferro-velho. Em 1943, alistou-se na Força Aérea e atuou em combate na Segunda Guerra Mundial. Ao retornar pra casa, dividiu sua vida entre o trabalho em uma empresa de telefonia, e as primeiras fotos de surf. Aconselhado pelo médico a seguir adiante com seu hobby, por conta de uma ulcera obtida em virtude do stress no trabalho, Grannis investiu mais do seu tempo à fotografia.

Já em 1960 ele começou a ter seu trabalho reconhecido. Suas fotos apareciam com destaque na revistas de surf da época , tornando-se o mais respeitado documentarista do esporte. Os outros fotógrafos já caiam na água com suas câmeras estanque, mas logo tinham que retornar para trocar o filme. Vencer a arrebentação várias vezes acabava por deixá-los exaustos e fazendo com que muitas vezes eles perdessem os melhores momentos da surf-session. Leroy inventou então um dispositivo que permitia a ele trocar o filme dentro da água, ganhando em agilidade e concentração.

Logo Grannis era o nome mais respeitado e requisitado no mundo da fotografia de surf. Passou a década entre o Havaí e a Califórnia capturando os melhores surfistas do mundo em seus mágicos momentos sobre as ondas. Em 1966 foi eleito o fotógrafo número um no International Surfing Hall of Fame. Até o prêmio Lifetime Achievement Award, Grannis expôs suas fotos em galerias de arte e publicou o livro TASCHEN LeRoy Grannis: Nascimento de uma cultura, um magnífico registro da história do surf moderno (R$ 850,00! Faz uns 10 anos que eu namoro o livro...).

Grannis foi co fundador da Revista Surfer, e com suas fotos ajudou a mostrar para o mundo o divertido , louco e formidável estilo de vida dos surfistas, popularizando o esporte. Seu estilo permitia o entendimento do deslocamento rápido e vertiginoso dos surfistas equilibrados em suas pranchas, e ainda assim traduzia em instantâneos toda a poesia deste esporte.

Grannis casou-se com Katie LaVerne Tracy, em 1939, quando ela tinha 20 anos, teve quatro filhos, seis netos, e três bisnetos. Aos 89 anos, no dia no dia 3 de fevereiro de 2011, deixou nosso mundo de grandes ondas e pequenas coisas vans... Mahalo, LeRoy de Grannis!

Conheça um pouco do trabalho de LeRoy Grannis:

Fotos em P&B

Fotos coloridas

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Sem o mar...

"Meu pai acreditava que não se devia tomar logo banho de água doce: o mar devia ficar na nossa pele por algumas horas. Era contra a minha vontade que eu tomava um chuveiro que me deixava límpida e sem o mar.

A quem devo pedir que na minha vida se repita a felicidade? Como sentir com a frescura da inocência o sol vermelho se levantar? Nunca mais? Nunca mais. Nunca"

–Texto Clarice Lispector – Foto do brow Papito

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

" The truth is... on screen! "

!

Em 2010 descobrimos o Wikileaks e nos demos conta de que onde há poder, há tentativas de esconder a verdade. Todas as poderosa instituições que estão aí (governo, igreja, "imprensa", grandes corporações) só se mantem no topo graças à constante e por vezes violenta manipulação da realidade. Mas as velhas oligarquias que se cuidem! Tirando a pequena burguesia escrota e alienada e a pobraiada abestada, sempre alheios a tudo que não seja consumo e futilidades, tem muita gente boa empenhada em mudar a situação, em trazer a tona todo o jogo sujo e podridão daqueles que querem se perpetuar no poder. O que isto tem a ver com o surf? Pense, a manipulação da verdade está diretamente relacionada com o futuro do nosso planeta. E a esperança é que hoje a verdade está a um clique!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Do Shopping pra Areia

Todo mundo vira surfista com o retorno do Sol aqui pros lados do hemisfério sul. Todo mundo é “brother”, todo mundo quer desfilar com sua prancha na areia. Até aí tudo bem. Não que eu me importe, desde que os posers não emporcalhem a areia. O duro é quando o povo que passou o inverno entre o shopping e o sofá arrisca uma aparição no outside.

Quem não conhece imagina que o surf é praticado em um ambiente quase idílico, de camaradagem e gentileza. A verdade é que nos picos mais concorridos quando surfistas se espremem numa valinha o mar vira um ambiente competitivo, tenso e opressor onde um surfista cumprimenta o outro só para estabelecer um certo nível de respeito na água.

No meu pico favorito, Mariscal, ainda é possível curtir o surf como uma experiência mística impermeável a nossa condição de humanos territorialistas e competitivos. Alheio a encarar o surf como um esporte e sim como uma doutrina espiritual, eu consigo estabelecer um regime de restauração de minha alma, frequentemente açoitada pelo caos de existir em um mundo em constante degradação.

Mas alcançar este Nirvana na água é uma questão de equilíbrio. E é difícil encontrar equilíbrio em meio àquilo que tenho por mais abjeto, seja um nativo ignorante, seja um um playboy pavoneando-se na água. Se já é complicado encontrar o meu lugar entre brigas por território, pior ainda é ter que disputar a minha posição no line-up com gente interessada em transformar o mar numa vitrine de vaidades.

O lance é torcer por um verão com cracas gigantes e constantes. Porque assim pelo menos, na primeira remada, o cara que não surfa nada vai deixar sua prachinha ornamentando a areia até a chegada do inverno, quando então ela retornará pro armário, pra debaixo da cama, pra qualquer outro canto que não interfira no surf de verdade...

Surfista Calhorda!

sexta-feira, 30 de julho de 2010

O Mar de Manhã

As estrelas procuram seus ninhos no céu, e a luz do sol surge para abençoar o dia. Hora de cair no mar. Kakis as 5 da manhã, unidos em torno do ritual do surf para experimentar novamente a mistura de adrenalina e endorfinas proporcionada pela emoção de vencer a arrebentação e deslizar sobre as ondas. A vida é pouca e o que vale é viver com intensidade tudo o que o Universo oferece...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Páscoa com uma semana de atraso...

O Guaia disse, o Guaia avisou! Nas ultimas trips tenho comentado com a galera que a água do mar esta muito quente. Muita energia acumulada. E quando toda esta energia desse de cara com uma frente fria, um ciclonezinho extra-tropical, o embate ia ser cascudo! Dito e realizado pela mother nature! As manchas verdes e amarelas do gráfico aí do lado traduzem a fúria do nosso brother Oceano Atlântico. Se no ultimpo post eu falava em “swellzinho” , olha o que eu acabei de receber do pessoal do Liquid Dreams:

“Algumas vezes somos um pouco otimistas demais, mas dessa vez não podemos ser conservadores diante dos fatos. É possível que estejamos prestes a presenciar um dos maiores swells de sudeste deste milênio. Graficamente, ele traz números jamais vistos na era pós-internet em águas brasileiras, e a comparação com o até então intocável swell da Páscoa de 2009 se torna inevitável. A ressalva importante é que trata-se de um swell de sudeste, e não de sul, e por isso picos diferentes poderão se destacar. Será um pareo duro. E se no litoral paulista a ondulação será monstruosa, as ondas no litoral carioca poderão entrar para a história moderna do surf brasileiro. Vai ter estória para muito tempo, e as lendas do surf serão recicladas.

Aquecimento atípico do Atlântico, El Niño ainda ativo, transição oficial do verão para o outono, choque brusco de temperaturas, astronomia e fusão de tempestades são alguns dos fatores encontrados no DNA da criatura que se desenvolverá nas próximas horas. Oportunidade rara para surfar secrets, ondas gigantes, picos adormecidos e até mesmo ondas inéditas.

A bola de cristal estava quente quanto ao segundo estágio desta ondulação, e uma rara configuração ciclônica deverá intensificar ainda mais o bombardeio. Depois de mostrar o lado negro da força, ao custo de aproximadamente uma centena de vidas, essa tempestade deve trazer o ápice entre a tarde de quinta e a manhã de sexta-feira, passando de 3m de sudeste, mas há potencial para que alguns picos especiais passem de 4 ou até mesmo 5m – as fotos irão mostrar depois. Além disso, deve garantir um FDS ainda com altas ondas de sudeste – big surf garantidíssimo!”

Se na semana passada o mar estava virado numa gigantesca REGAN, era só uma questão de tempo para tudo se transformar . Quem surfa sabe, Páscoa sempre dá onda (olha o vídeo!). O equinócio tende ao equilíbrio só no nome porque quem freqüenta os mares do sul com alguma assiduidade já sacou que a mecânica celeste é pródiga em proporcionar quebras violentos entre as gigantescas massas de ar quente com as glacias massas de ar frio, nesta época do ano. É isso, aos malucos de boa fé, dispostos a fazer a cabeça em um marzão gigante desejo sorte e coragem! E pra quem não lembra do Swell de Páscoa de 2009, um videozinho para preparar o espírito diante do que nos aguarda:

domingo, 4 de abril de 2010

Páscoa Flat, mas sem farra do boi.

Pascoa flat margarete nos mares Brazucas. Aqui no sul, tudo virado num largo piscinão. O coelhinho vai ter que procurar outras bandas para surfar! De legal, o fim da Farra do Boi em Bombinhas / Mariscal em boa parte de Santa Catarina. Bem que os trogloditas ignorantes de plantão tentaram, mas o Ministério Público atuou exemplarmente em todo o estado, para coibir esta barbárie praticada por por uma minoria baderneira e irracional.

E as ondas parecem que darão as caras no nosso outono subtropical lá pela meio da semana que vem! Vem aí o primeiro swelzinho da estação! Então lá vamos nós para Abril... Clock ticks e entre um swell e outro a gente se ocupa do alegre e misterioso ofício de viver, ué... Boa Pascoa a todos, seja lá o que ela signifique em seus corações!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Octopus na pista

A pista com melhor design e visual sempre será o marzão. De qualquer jeito, até nos dias cinzas e encaracolados de vento maral. Mas aí, a arte muito legal dos brothers aplicadas numa pista de skate. A trilha é de uns velhos conhecidos dos Kakis: Vampire Weekend.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Quem nunca imaginou pegar onda no Guaíba?

Surfar exige uma relação constante com o mar. Não digo isto apenas por fatores como a evolução técnica do nosso surf. O surf é um esporte complexo, que envolve um ritual de equilíbrio, movimentos diversos que devem ser corrigidos a cada segundo e alguma ligeira intuição sobre o que fazer quando aquela remada deu certo e o drop funcionou. São detalhes que se perdem a medida que os dias ficam para trás se estamos longe do mar. Quando ficamos muito tempo ausentes do encontro com as ondas, a coisa desanda, é como que se tivéssemos que começar tudo novamente. Ressentidas de nossa ausência as ondas parecem não colaborar, o corpo trata com certa estranheza aquele lance de equilibrar-se em cima de uma prancha, e demora um pouco para que tudo comece a fluir novamente.

Além disso, há outro fator bem conhecido que incomoda todos aqueles que um dia já experimentaram a sensação de deslizar sobre as ondas: a fissura. Cinco ou seis dias longe do nosso gigantesco playground, até que são suportáveis, desde que nosso espírito de surfistas urbanos não seja castigado com rumores sobre grandes Swells, nem com noticias de surf e estímulos visuais de pranchas, ondas perfeitas, 1 metrão de onda, areia, etc...

Mas, passado este período de uma semana, a coisa definitivamente começa a complicar. É difícil manter a concentração e encarar projetos, planilhas, pessoas, relatórios, problemas sem ter o nosso pensamento fixado nas ondas. Qualquer coisa que lembre uma onda, gera uma imediata reação, que vai de um sorriso a uma leve irritação diante do fato de estar aqui, e não por lá. O tempo passa, a coisa toda piora, e só mesmo o contato com a água salgada pode colocar a cabeça em ordem novamente.

No último ensaio de dilúvio em Porto Alegre, uma galera certamente movida pela fissura, deixou de lado a prudência e munidos de pranchas, sleaves e corda, coragem e bom humor (sim, estas coisas só acontecem com um certo ímpeto de alegria no comando!) e foram enfrentar o arroio para saciar a vontade de ondas. Quem nunca sonhou pegar onda no Guaíba? Pois é, se os brothers vacilassem era provavelmente por lá que eles iriam ensaiar os seus drops. Definitivamente ficar longe das ondas afeta a nossa capacidade crítica, como bem definiu o brother no início do vídeo...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Quequié Mermão!

Fico bastante feliz em olhar os anos que deixei para trás e perceber que minha trajetória nesta vida é uma curva em ascendência constante no que tange a qualidade de minhas idéias e conceitos. Já fui um idiota, eu sei, (em algumas outras coisas ainda devo ser) já fui crédulo (demais), já fui intolerante, mas penso que já me livrei de boa parte de vícios e manias, pensamentos tortos, dogmas preconceitos e idéias emboloradas que já perderam seu significado. O mais importante é que adquiri a consciência de que devo seguir constantemente evoluindo em meu modo de encarar a vida para aprimorar minha coexistência.

Volto a falar mais sobre isto por aqui outra hora, mas esta pequena introdução tem duas finalidades. Primeiro pra dizer que em uma coisa talvez eu ainda não tenha obtido uma grande evolução: Irrito-me facilmente diante de qualquer manifestação de ignorância. E por fim, que eu acredito que pessoas que se dêem ao trabalho de pensar um pouquinho que seja, de questionar o senso comum, podem assim como eu, abandonar velhos comportamentos.

Pois bem, vamos lá. Acho que o localismo é um assunto esgotado. Todo mundo que está minimamente antenado com o mundo do surf já sabe que tudo o que havia pra ser dito sobre esta babaquice já foi dito. Localismo é um troço estúpido que ainda persiste na cabeça oca de alguns (normalmente os mais ignorantes) que acabam cooptando velhas práticas dos velhos surfistas locais. Como o caso dos garotos nativos que surfavam conosco no pico de Matinhos cinco anos atrás, e que no início eram cordiais e comunicativos até serem intoxicados pelo comportamento primitivo dos “surfistas” mais antigos. Como diria Paulo Francis “O mundo sempre se torna óbvio quando você aposta na imbecilidade disfarçada de bem comum.”. Então, para eles é normal chamar aos outros surfistas de “Haoles”, uma palavra de origem Havaiana, que os miolos –moles repetem como um pretenso insultozinho ridículo, sem saber sequer o seu significado.

Defender seu espaço talvez já tenha sido muito útil como experiência evolutiva. Digo talvez porque ainda não estou muito convencido disso. À luz da realidade, somos todos da mesma espécie, e não me ocorre uma única guerra sequer onde tivemos que defender nosso território contra alienígenas para evitar nossa extinção. Então não entendo muito bem onde este lance de matar uns aos outros por conta de espaço possa ter nos ajudado na outrora árdua missão de perpetuar nossa espécie. Destruir outros agrupamentos humanos com o objetivo de preservar e levar adiante nossa identidade genética pode ter feito sentido quando éramos milhares.Hoje somos milhões, já viramos praga, e perder nosso tempo com isto é pior do que gastar horas na frente de da telinha assistindo um reality show.

Enfim, por algum motivo, por falta de um lumiar de pensamento talvez, existe este troço aí, esse tal de localismo, um arremedo chinfrim das lutas ancestrais por espaço que hoje sem nenhuma utilidade habita como um verme a cabeça oca desta moçada...

...e eis que eu, Guaia, pacato surfista, pacato cidadão, no início do mês novamente foi confrontado com esta asneira comportamental, na praia brava de Matinhos. Depois de um mês sem surfar, a “minha onda do dia” aproximava-se. Remei decidido e um “local” (ta bom vamos chamar o sujeito assim pra facilitar a identificação dos personagens) veio ciscando, remando lá da puta-que-o-pariu, berrando para que eu não entrasse na onda. Pois bem não vou desenhar o ocorrido, nem discorrer sobre suas minúcias. O fato é que o cara cobiçou minha onda e eu azarei a onda dele. O resultado foi o “local” grunhindo “Porra meu ta maluco, vem aqui na minha praia fazer palhaçada, seu otário”. Pois é! Talvez se ele viesse falar comigo sobre o fato de eu não ter o direito de estar naquela onda por uma questão de prioridade, afinal ele vinha da direita e blá, blá, blá, eu ia entender. Mas me irritou profundamente o papo de “minha praia”. Que minha praia, o que, seu Mané! Dono da praia pra mim é coruja, siri, restinga. E eles sim eu trato com respeito!

Bati boca com o “local” durante alguns segundos simplesmente para marcar minha posição. Tenho ciência de que um imbecil que se arvora como dono de um trecho na praia obviamente é um sujeito incapaz de conceber idéias, de pensar por si só. O comportamento de rebanho daquela figura de cérebro atrofiado e músculos hipertrofiados indica apenas que ele segue o comportamento da manada. Só isso. Nada, de questionamentos , como, “Dãã, por que estou agindo assim?”, nada de estabelecer uma lógica discursiva que poderia levá-lo a novos conceitos. Por conta disso nada do que eu falasse iria mudar sua forma de agir.

Remei para longe do grupo onde estava o “local” e ele continuou vociferando. Mas fiquei mesmo impressionado com a atitude dos meus brothers. Enquanto o síndico do pico me insultava os Kakis faziam coro com ele. Sério! Parecia aqueles desenhos/musicais da Disney. O troglodita gritava: Sai fora da minha praia! Sai fora da minha praia! E as matraquinhas Kakis repetiam em coro o refrão _ É , cai fora, cai fora, o mar é deles! Como eu estava bem longe, minha imaginação me fez supor que entre os versinhos de sua desafinada cantoria eles ainda pediam humildemente pro “local”, - Podemos pegar uma ondinha na sua praia? A deixa vai!

Acho que Nietsche em a “Moralidade do Escravo” explica bem boa parte das panacéias inventadas deste mundo e a princípio achei que isto pudesse justificar também o comportamento dos meus brothers. A comoda passividade, a aceitação da “autoridade”, a domesticação. Mas parei de viajar! Não! Acho que não! Meus brothers são suficientemente evoluídos e emancipados em suas idéias para tão pouco! Talvez de uma forma enviesada eles simplesmente arrumaram de improviso uma maneira de evitar confusão. Tudo o que nós queiramos era surfar, e aquela situação era um ruído absolutamente desnecessário naquela manhã de Domingo. Enfim, depois, já na areia, conversamos e rimos sobre o ocorrido, mas todos defenderam seu ponto de vista e logicamente não chegamos a uma conclusão.

Fomos unânimes só mesmo em uma coisa: Surfar deste jeito nos abstrai do verdadeiro espírito do surf, algo que tem muito mais a ver com harmonia, respeito e busca por equilíbrio, do que uma situação desagradável com esta. Surfar não combina com sanhas territorialistas, insultos e stress. Quando acordamos cedo e descemos a serra definitivamente não esperamos bater boca com um “local” anabolizado. Buscamos apenas paredes longas e cristalinas, tubos, cutbacks, risadas , diversão e a paz de espírito que uma surf-session proporciona.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Tas x Surf

Quando um dia resolvi dar uma guinada em nossa empresa para atuar mais efetivamente com produção de eventos eu sabia que esta escolha certamente iria me tirar alguns dias de surf agora, mas iria me garantir alguns dias a mais de surf no futuro. Pois bem feita a escolha (certa ou errada só o tempo dirá), depois da palestra do brow Gabriel Pensador, e das palestras do Marcelo Tas e Caco Baracelos, restou a sensação de que 3 finais de semana sem surf valeram a pena! Acreditem, os caras são ainda mais geniais ao vivo! Como já disse por aqui, a ausência do mar enferruja a alma, mas desta vez a injeção de conhecimento e conceitos novos que a adquiri no evento que ajudamos a fazer (Feira de Gestão da Fae), garantiram meu ânimo pra esperar até o próximo domingo!

No videozin, o momento em que o Tas vem me cumprimentar , e eu na pira de produtor vacilei e deixei ele com a mão estendida alguns segundos, achando que haviam perdido o apresentador dele...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Equinócio de Primavera

Nasci na parte sub-tropical de um país tropical, e na maior parte do ano o Deus Sol quando das as caras, não esquenta. O Equinócio de primavera que chega no fim do nosso nem sempre radioso setembro não deveria ser recebido com muita empolgação por um surfista. As ondas preferem o outono / inverno, eu sei, mas seis meses de friaca, dias acinzentados e água gelada são suficientes.

Prefiro ainda que com menos ondas, as cores vistosas de um dia banhado de azul, a areia escaldante, as noites quentes de Mariscal. Quanto as ondas, nem é tão ruim assim. Meus brothers sabem do que eu estou falando.No dia 3 de Janeiro de 2009 pegamos um dos melhores mares do ano. As ondas que partem pra outro hemisfério em busca do inverno, não contém a sua saudade e nos visitam com menos frequencia, de carona com as Tempestades Tropicais e Ciclones Extra Tropicais entre setembro e março. Por certo, há que se ter um cuidado maior, temos que combinar certinho com elas (as ondas, ow!) pra não haver desencontros.

Tudo acertado, vou fazer valer meu direito ao sol! Direito adquirido e já documentado, quando nesta louca loteria cósmica, fui sorteado para nascer num país tropical, abençoados por Deus e bonito por natureza!

Yeah, lá vem chegando o verão!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Tietê

O Tietê, aquele lodaçal moribundo, reservatório de todo o esterco e ignorância do cidadão paulistano, nasce limpo como o nosso fétido rio Belém e tantos outros rios quem insistem em sobreviver nesta planeta usurpado pela raça “Sapiens”. No caminho ele vai absorvendo os dejetos da vida moderna e transforma-se no canal de imundícies que corta a cidade de São Paulo.Mas valente, ele renasce mais a frente, desaguando no Rio Paraná, encontrando então o Atlântico na bacia do Prata. Como disse Theodor Adorno, "A civilização atual a tudo confere um ar de bosta". Literalmente, metaforicamente, enfim, coberto de razão...

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Surf no Planalto Central!

A galera de Brasília não precisa mais surfar só "no céu azul de nuvens doidas". Pelo menos os mais abastados. Deus me livre de um dia ter que morar longe do mar!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um surfista feliz!

Quando eu era garoto, contemplar o céu noturno pontilhado de estrelas, nas noites em que ainda era possível identificar o rastro de poeira cósmica da Via Láctea, ou ver o mar em fotos, filmes, revistas e raramente ao vivo, me trazia sensações ligadas à aventura, a magia e ao mistério da vida. Tudo me permanecia indecifrável e esta era a sensação que eu mais gostava, o assombro de um guri do século XX diante de belezas tão imutáveis, tão ancestrais...

Mas de alguma forma fui deixando de lado um pouco do meu inquietante espanto ao namorar o firmamento. Aos poucos mudei a minha maneira de reagir aos segredos do céu. Talvez tenha sido a influencia da educação que recebi em colégios católicos que tentavam acabar com a inefável poesia do infinito me fazendo acreditar na pragmática criação do universo feita em seis dias por um sujeito barbudo e punitivo. Talvez tenha sido a ciência, que aos poucos transformou aqueles pontinhos brilhante aninhados em milhares de galáxias, em fornalhas de gás que convertem hidrogênio em hélio. Mas sei que a medida que minha infância se extinguia e que as coisas terrenas me cercavam eu já não via mais o céu como antes. Ainda me espanto e me encanto com a magnitude do universo, mas o tempo encarregou-se de roubar um pouco da minha emoção.

Porém o meu fascínio pelo mar e pelas coisas do mar sempre foi o mesmo. O Guaia que hoje sai à procura de uma valinha com seus brothers e o Guaia de 30 anos atrás que eufórico e curioso contemplava o mar, carregam no rosto sempre o mesmo sorriso. Na primeira vez em que eu botei os pés na areia, senti a brisa marinha e vi as ondas que chegavam ao inside eu nem fazia idéia do que era o surf, mas só o fato de estar ali, pés molhados, olhos fitados nas marolinhas, era o suficiente pra fazer de mim um garoto muito, muito feliz. Tenho vívidas a lembrança do misto de perplexidade e vertiginosa empolgação que sentia toda vez que ouvia a palavra “praia”. E isto tudo que eu ainda nem sabia o que era o surf. Não imaginava que pudesse existir uma forma tão poética e divertida de interagir com aquele gigantesco playground feito de espuma e água movimentando-se em seu desordenado balé. Por hora, bastava-me estar ali!

...e um dia então, eu descobri o surf. Uma onda que veio lá do meio do oceano, chegava à praia e me convidada pra um passeio. Aceitei o convite generoso da simpática marolinha esverdeada e me tornei um surfista. Acho que os superlativos não dão mais conta de traduzir o encanto e a atração que as ondas exercem sobre mim. Hoje sou o Guaia da Cris e da pequena Mayra, o Guaia dos brothers e o Guaia Surfista. É isto tudo o que me define. É isto que faz de mim uma pessoa feliz. O surf faz parte da minha vida e o mar é meu companheiro fiel, mais um parceiro ilustre em minha trajetória por este nosso simpático planetinha, pálido ponto azul mergulhado nos mistérios do nosso universo...

Mahalo, meus brothers!

terça-feira, 21 de julho de 2009

Deixar este mundo...

Então, não rolou nosso bate-volta no fim de semana. O Maluco-lá-de-cima joga dados, e nos ensina que não é bom fazer planos, porque quem manda de verdade nisto tudo é mesmo o acaso...

Estava tudo pronto para irmos ver o mar e recebemos a noticia que um brother nosso, paizão gente boa de brothers nossos, deixou este mundo de grandes ondas e pequenas coisa vans...

Tenho por certo que a mudança de existência deste nosso brother (parceiro , pai dedicado, dono de um sorriso sempre constante) não encerrou sua aventura nesta vida. Ele transcendeu sua existência na forma que constituiu sua família e educou seus filhos . Diante disso o absurdo inaceitável da morte não tolheu dele um significado, um porque de ter existido.

Mas ainda assim é tudo muito triste e desolador. Penso que pessoas como eu não tem aspirações à eternidade por motivos egoístas. Queremos permanecer por querer estar sempre aqui para proteger eternamente àqueles que amamos. É por isto que pensar em partir nos assusta. Pensar em nossa impermanência nos assusta, diante do medo que temos de abandonar os nossos aos perigos deste mundo. Mas nada deve ser mais terrível do que enfrentar a partida daqueles que amamos.

É duro falar sobre isto, e pensar na morte afronta o ofício de viver. O homem livre em nada pensa menos do que na morte e sua sabedoria é uma reflexão não da morte, mas da vida, dizia Epinoza. Mas, acho que o brow Moby encontrou uma forma mais sutil e poética de traduzir nosso medo e impotência sobre esta que é mais assustadora das incontinências humanas...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Já que hoje não dá pra ir pro mar...

Chopinzando na cara dura o "Flagras do Msn" do Jacaré Banguela:

!

Na agência, tomando café frio, na companhia de espectros ectoplasmicos...